IMPRENSA - O mistério do Forte de S. Filipe

O mistério do Forte de S. Filipe
Harpa: som português liberta-se do jugo estrangeiro
João Gonçalves e Luís Pires, da G&P, escolheram as armas e o campo: comparação entre CD e LP, no cenário magnífico da Pousada do Forte de São Filipe, em Setúbal. Eu aceitei o desafio. Mas nunca pensei que iria encontrar dois misteriosos encapuçados nas masmorras deste velho forte do séc. XVI...



TEXTO DE JOSÉ VICTOR HENRIQUES

A vista da magnifica esplanada da Pousada ressarciu-me da longa subida pelos degraus de lajes gastas pelos passos da história: os olhos espraiaram-se deslumbrados pelo estuário do rio, que corria manso e indiferente lá em baixo, polvilhado de barcos aguardando impacientes a sua vez de serem recebidos pela Rainha do Sado. Alcandorado e protegido por muralhas outrora ferozes, o Forte de S. Filipe mantém, sob a farda coçada pela inexorabilidade da passagem dos séculos, a postura militar original.

Do outro lado, Tróia: o atentado ecourbanístico das torres erguendo-se como furúnculos na pele de areia fina das dunas (parece que vão finalmente abaixo). Carolina Marafusta, a simpática directora da Pousada, juntou-se a nós para interpretar o repertório restaurativo, com a sensibilidade artística do maestro que sabe de cor a pauta gastronómica e dirige do cravo uma orquestra barroca com gestos breves e significativos. A sala estava cheia de comensais, entre turistas e políticos, rendidos como eu à excelência do cardápio e à beleza do cenário.

Senti-me regressar à infância, a hospitalidade serena da casa da minha avó, em dia de almoço de família: pão e vinho sobre a mesa, os petiscos sábios e sápidos em pratinhos individuais, o borreguinho tenro e as deliciosas cascas de laranja cristalizada caseiras, que eu, já lá vão mais de 40 anos, meu Deus!..., surripiava e escondia no bolso dos calções para dar aos amigos, e ela fingia não ver com um sorriso benevolente desenhado no rosto pelo traço fino das rugas. Como é bom reencontrar os sabores que se perderam na vertigem do tempo.

No fim do repasto, quando todas as pétalas do “bouquet” do Pegos Claros-94, tinto, se abriam finalmente à curiosidade do meu olfacto, fui conduzido sob escolta às medonhas masmorras do Forte de S. Filipe, sobre o qual assenta, desde 1965, o actual edifício da Pousada. E, no mesmo local onde outros porventura penaram no passado, expiando os crimes cometidos, senti-me também eu culpado por limitar-me a “chegar, ver e ouvir” o sistema de som, ali previamente colocado pelos meus anfitriões, à custa de fadigas mil, por escadas e galerias secretas e portas de grades ferrugentas, assim se autocondenando a trabalhos forçados, com o único objectivo (pensava eu) de me provar - como se eu não soubesse já - que LP é melhor que CD. Era essa pelo menos a aposta original.



Esperava-me, contudo, uma surpresa: depois de um percurso sinuoso, ao entrar numa sala de paredes de pedra, tão grossas que os telemóveis logo ali - por uma vez, caramba! - emudeceram, quedando-se inúteis no bolso, deparei com dois misteriosos encapuçados. Brrr!, cheguei a temer o pior: da proposta inicial de uma simples audição, ter-se-ia passado para uma execução ao vivo? Ou seria a versão audiófila do Homem da Máscara de Ferro? Talvez do Conde de Monte Cristo? Debaixo da capa estava a segredo: Harpa.

É o nome comercial de um projecto concebido por três jovens engenheiros portugueses, Carlos, João e José, que preferem assim manter o anonimato, não por vergonha da obra concebida, mas porque acham que só ela interessa: umas colunas de som de seis vias e filtros de pendente suave (1ª ordem) complementados por filtros mecânicos (câmaras internas de absorção selectiva), com duas unidades médios graves e uma unidade de médios por coluna; um poderoso “sub-graves” escondido nas entranhas que disparam para os pés, todos em polipropileno HDA da Audax; um “tweeter” da Vifa; e, “last but not least”, um raro “supertweeter” de corneta da Visaton, colocado lateralmente, porque, e cito: ”É assim que soa melhor”, garantiu o Carlos, com o mesmo entusiasmo transbordante que eu sentia, quando me dedicava à inglória tarefa de construir as minhas próprias colunas de som e amplificadores, a partir de “kits” importados à candonga. Agora critico o trabalho dos outros todas as semanas no DNA e (no último Domingo de cada mês) no Noticias Magazine (DN, JN). É a vida.

“Criámos software específico para as medições, mas concluímos que não há nada que chegue ao ouvido humano”, confessou o João. “Há anos que cheguei à mesma conclusão...”, corroborei eu. “O Luís (Pires), da G&P Áudio e Vídeo, deu urna ajuda na afinação e...”. O Luís interrompeu-o de imediato: “Estive até ás tantas da manhã a dar os últimos retoques...o tweeter estava um bocadinho vivo, limei umas arestas e... acho que assim está bem... a acústica aqui é má, lá em casa soaram muito melhor...”. E logo o João rematando com sinceridade e preparando-se para o pior: “Ainda não está a 100%, atenção, mas queríamos a sua opinião, só para saber se vale a pena continuar...”.
“Querem mesmo saber o que eu penso?...”, perguntei ex-catedra, fazendo uma pausa que os deixou suspensos naquele cenário de catacumba. Aparentemente, estavam dispostos a ser enterrados vivos por um escriba menor - tudo em nome de um sonho. Como se o sonho não fosse uma constante da vida, que nada nem ninguém pode destruir. Quantos sonhos de gente que por ali passou não estarão ainda gravados naquelas paredes escalavradas e frias que suportam agora o sono feliz dos que lá se hospedam no conforto de lençóis a cheirar a alfazema?...

O sistema (ver caixa) dispunha de fonte analógica, o notável gira-discos Basis Debut 2500 II; e digital, o leitor-CD SimAudio Moon Eclipse. O primeiro prato foi sempre digital (CD), seguindo-se depois a doce sobremesa do analógico (LP), ambos obtidos a partir da mesma matriz. Iniciou-se a função com Hotel Califórnia, dos Eagles. O excesso de graves era óbvio, como graves eram as culpas do labirinto de corredores das masmorras que iam desaguar livremente em dois pontos da câmara de audição, excitando assim alguns dos modos de baixa frequência da sala. Em consequência, os registos-médios soaram-me algo recuados, tímidos na presença e renitentes no ataque; o agudo pautou-se como doce e informativo. A opção por colocar as colunas com os “supertweeters” do-lado-de-fora parecia favorecer a abertura da boca do palco sonoro em detrimento da focagem. Contudo, já era possível distinguir com relativa facilidade a superioridade do LP sobre o CD. Um bom augúrio, pois indiciava que as Harpa tinham poder de resolução e ausência de colorações e desvios de fase. Do ar que vibrava dentro das congas e da miríade de harmónicos produzidos pelas diferentes guitarras, à voz de Don Henley, tudo era mais musical, natural e emotivo no LP, incluindo a bruáa de aplausos no final da peça. Era evidente que as Harpa tinham sido “afinadas de ouvido” com recurso a LPs. Luis Pires exibia um sorriso cúmplice.

Com Roots Revisited, de Maceo Parker, algo de extraordinário aconteceu. Ou porque o sistema entretanto aquecera; ou porque eu desloquei a minha cadeira para um ponto onde o reforço de graves ditado pela acústica da sala de audição improvisada não se fazia sentir tanto; ou porque a cérebro, essa maravilha criada por Deus, se adaptou, esforçando-se por esquecer os defeitos e concentrando-se apenas nas virtudes, a faixa Children’s World deixou-me rendido às qualidades sonoras das Harpa. Os graves continuaram pesados, é certo, mas ganharam articulação, definição e tensão e o recuo dos registos médios passou a soar agora mais como uma opção deliberada e inteligente do que uma omissão. O agudo mantinha a doce ilusão de continuidade e o manancial de microinformações indispensáveis para recriar o evento original. Uma vez mais, foi o LP’ que ganhou com uma mão atrás das costas (e estamos a falar de um bom leitor-CD), o que nos leva a especular sabre o que andámos a fazer das nossas vidas audiófilas nos últimos vinte anos. A música era a mesma, como é óbvio, e a tarola até soou mais seca e tensa no CD e os pratos e a guitarra mais vivos, mas há uma coisa que o CD, neste caso particular, não nos deu: subjectivamente, a emoção contida em cada nota do sax-alto de Maceo Parker, em acesa disputa com o sax-tenor de Bee Wee Ellis; objectivamente, a noção exacta de que cada um dos instrumentos foi gravado numa cabina diferente: o som do ar que envolve as dois músicos é acusticamente distinto, assim como o que envolve os outros intervenientes no processo musical. No LP ouve-se; no CD adivinha-se. Experimente comparar.

Carolina, que entretanto se juntara ao painel de ouvintes, e não sabia que o som também pode ter “bouquet” como o vinho, não queria acreditar no que ouvia. Depois da noção agora aprendida de “ar que envolve músicos”, a voz de Kari, a Ute Lemper nórdica, foi a revelação final: não só era melhor a colocação da voz, era-o também a dicção e fundamentalmente a intenção da artista, algo que o LP transmitia e o CD escondia, ou pelo menos resguardava, a tal ponto que suspeito, neste caso, de uma má transcrição da matriz.

Buena Vista Social Club só veio confirmar o que fica dito, com Ruben Gonzaga e Compay Segundo a saltar do LP para a chão de pedra do palco sonoro. Vivos e ao vivo. O CD soava como um clone. Liofilizado.
O sistema estava a tocar tão bem - e com ele as Harpa -, que só o frio - e com ele o arrepio - nos fez sair ainda a tempo de aprender que o sol, quando se põe, não é para todos: pode ser visto do alto do Forte de S. Filipe, descendo majestoso e quente sabre o verde da serra da Arrábida, ou aos quadradinhos através das grades da masmorra. O sol é o mesmo, o contexto é diferente. Há também quem oiça som aos quadradinhos, pensando que está livre, só porque tem um controlo remoto na mão.

Quem matou (ou tentou matar) o LP devia ser condenado a cem anos de prisão, tantos quantos os anos que levou a aperfeiçoar o gjra-discos. Eu, que só uso CD, sou cúmplice do crime. Mea culpa.